quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Lágrimas por Ceará


O frescor da manhã ainda refletia na grama da praça quando saí para levar o lixo na caçamba estacionada na esquina da rua. Notei que um pequeno caminhão de mudanças circulava a praça lentamente, com o motorista olhando atencioso para as casas.

- Está perdido, pensei.

Dito e feito. Segundos depois o caminhão de cor branca e placas de São Paulo para ao meu lado. Tento ler o nome da empresa de mudança estampada num pequeno slogan na carroceria, mas ela está toda riscada. 

- Bom dia moço, você sabe onde fica o número 245 desta rua, pergunta o motorista, um jovem com cerca de 25 anos, barba por fazer e olhar preocupado.

- A numeração nesta rua é desordenada mesmo, respondo. Também não sei, mas se você tiver o nome da pessoa talvez eu conheça. 
Ele pega o celular e me mostra o nome, o endereço e a foto do rapaz. É um jovem, também barbudo, provavelmente estudante e morador de uma república. Dou uma boa olhada na foto mas não reconheço o rapaz. Explico ao motorista que a rua é curta e fica entre a Estrada da Rhodia e a fazenda e que não vai ser difícil encontrar o número. Sugiro que ele procure num beco no final da rua. É bem provável que o número esteja por lá. Já estava colocando o lixo na caçamba quando ele puxa conversa.

- Lugar tranquilo de morar aqui, né, muito bonito também, diz ele. Ruas de terra, muitas árvores e esta calmaria.

- Concordo e digo que é muito bom, ao contrário de São Paulo, de onde deduzi que ele vinha.

- Ah sim, São Paulo é aquela poluição infernal, barulho, carros, uma doideira sem fim, diz ele, alongando a conversa. Mas este lugar lembra muito minha terra natal, o Ceará. Vim para São Paulo para fazer um dinheirinho e assim que puder volto para minha terra, diz.

- Com certeza a qualidade de vida lá é bem melhor que o inferno de São Paulo.

- Não é só isso, é que deixei meus pais lá, sozinhos, eles só têm a mim no mundo. Estou morrendo de saudades deles. Não posso nem falar isso que me dá vontade de chorar. 

E para minha surpresa, ele começa a chorar mesmo. Constrangido, em plena segunda-feira cedo, com um homem desconhecido chorando na minha frente, digo que é uma decisão que somente ele pode tomar. Ainda com lágrimas nos olhos, ele diz que está pensando seriamente em retornar aos seus familiares, mas que antes precisa guardar um dinheiro. Pensei em quantos como ele no passado fizeram este caminho e que jamais conseguiram voltar para seus familiares, ficando a saudade e a dor de uma separação.

Ele agradece pela ajuda, liga o caminhão e vai em direção ao beco onde talvez esteja a pessoa que procura. Coloco o lixo na caçamba, caminho para casa e penso no que será o resto da semana. Bom dia.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

O frio e o fogão a lenha



A chegada do frio resgata detalhes marcantes para quem viveu boa parte da vida na região Sul, alguns pouco conhecidos no restante do País. Desde frutas como o pinhão e a bergamota, até o chimarrão e o velho fogão a lenha. Ingredientes básicos para quem precisava enfrentar uma sensação térmica abaixo de zero diariamente. Mas é por meio do eficiente e indispensável fogão a lenha que todos os ingredientes acima ganham vida.


Não, não é esse fogão de alvenaria que se vê por aqui. É um fogão de ferro, branco, com uma caldeira no lado esquerdo onde ficam litros de água permanentemente quentes, um forninho, uma chapa cobrindo toda sua superfície onde são colocadas panelas e chaleiras, e um buraco onde é embutida uma chaminé que leva a fumaça para fora de casa.

Quem conhece um pouco da região Sul sabe que esse utensílio é básico em todos lares. Além de aquecer a cozinha, é no fogão que se faz café, almoço e jantar. É o ponto central das casas. É ali, na cozinha, ao lado do fogão, que são recebidas as visitas, principalmente nos dias gelados. Sobre a chapa, para não desperdiçar o calor e a lenha, tem sempre pinhão, batata-doce, leite e a chaleira chiando para uso no chimarrão ou chá.

Minha mãe fazia todas comidas sobre esse fogão. O ritual era o seguinte. Meu pai acordava com a geada ainda cobrindo as plantas e ia para a cozinha acender o fogo. A lenha, para não pegar umidade, era guardada em uma caixa atrás ou ao lado do fogão. Quando a cozinha estava aquecida, ele acordava a filharada. Normalmente deixávamos sapatos e meias embaixo do fogão e uma blusa sobre a caixa de lenha para ficarem aquecidos. A essa altura, a mãe já havia preparado nosso café no fogão. A chapa estava coberta com iguarias fortes como polenta com queijo colonial derretido, salame, fortaia (uma omelete típica italiana com queijo colonial e salame), café e chocolate quente. Aquecidos por dentro e por fora, saímos para enfrentar o vento gelado da manhã em direção à escola

Aí então começava o preparo do almoço. As panelas com arroz, feijão, carne, batata e outras delícias cobriam a chapa do fogão. Depois do almoço, a chama diminuía, mas nunca era apagada. As comadres chegavam e a conversa era acompanhada com pipoca, bolos e outras comidas. A noite gelada vinha e a cozinha estava ali, quentinha. A família se reunia em torno do fogão conversando, comendo pinhão assado, ou assistindo um pouco de TV. Os adultos, claro, saboreando um vinho. Nós, crianças, colocávamos bergamotas e laranjas sobre a chapa para tirar um pouco do gelo.

No dia seguinte, o ritual se repetia. E assim ia até o Verão chegar, quando então o fogão era “desligado” no período da tarde. Somente à tarde. Acostumado com o ritmo lento e mais saboroso da comida feita no fogão a lenha, minha mãe usava pouquíssimo a chama a gás. E quando usava, era comum reclamar que a comida havia queimado.

Quando você for para o Sul, repare naquela fumacinha branca que sai da chaminé de uma casa. Ali dentro tem um velho fogão a lenha aquecendo uma família e preparando uma gostosa comida. Coisas do Sul.

Harley-Davidson V-Rod Muscle e o espírito de liberdade sobre duas rodas


Por Jorge Massarolo
A Harley-Davidson V-Rod Muscle surgiu da inspiração de dragsters,
superbikes e da herança das motos de corrida da marca
Todo apaixonado por motocicletas tem o sonho de um dia ter uma lendária Harley-Davidson na garagem, ou então, pelo menos dar um passeio com ela. E foi com essa ansiedade que fui até São Paulo buscar minha primeira Harley para avaliação para o Correio. Por fotos, já tinha visto que V-Rod Muscle era um “monstro” no bom sentido para uma motocicleta, mas, ao vê-la de perto, fiquei impressionado. A moto mede 2,4 metros de comprimento e pesa 307 quilos. O pneu traseiro é imenso, tem 249 milímetros de largura e seu design agressivo, imponente e futurista geram uma tremenda adrenalina.
Acostumado com a leveza das motos esportivas e trail, fiquei pensando como é que eu ia me virar com aquele gigante no trânsito de São Paulo, que evito a todo custo. Esta não é uma moto para cidade, pensei. É pura estrada. Entre ansioso e tenso, dei a partida — um sensor de aproximação ativa e desativa a ignição e o alarme. Esperava um ronco estrondoso, estilo Harley-Davidson, mas o que ouvi foi um barulho manso, mas denso, nada ruidoso para um motor de 1.247 cm³ com 122 cv de potência. Engatei a primeira marcha, saí de mansinho e logo percebi a primeira diferença. Meus pés ficaram no ar, procurando as pedaleiras no local onde estariam automaticamente nas outras motos. Mas na V-Rod não. Elas estão lá na frente. E de cara tive que virar uma esquina. Devido a grande distância entre eixos, (1,7 metro), o ângulo de curva aumenta muito.
Foto: Divulgação

Escapamentos em cromo acetinado dão o toque final no estilo agressivo da V-Rod Muscle


Logo percebi que teria que mudar meu estilo de pilotagem. O corpo forma um “C”. O quadril fica lá atrás e os braços e pernas esticados para frente. Um problema para quem tem braços curtos. E lá fui eu. Logo entrei na Marginal Pinheiros. Em alguns momentos até ousei andar no corredor entre os carros, mas em boa parte do tempo me comportei como um veículo — o peso e dimensão da V-Rod não permitem manobras rápidas — até porque não gostei muito das buzinadas dos motoboys.
Painel
Como a via tem velocidade limitada, precisava controlar o tempo inteiro o acelerador do potente motor, e aí surgiu uma dificuldade. O velocímetro é analógico com os números pequenos e saltando de 20 em 20km/h. Era difícil saber com precisão onde estavam os 50km/h ou 70km/h, por exemplo, dois dos limites impostos na Marginal Pinheiros. Outro detalhe é que os números são pequenos e pintados de cinza sobre uma faixa preta no painel. Difícil de enxergar, dependendo do posicionamento da luz. O que em outras motos basta uma rápida conferida, na Muscle tinha que perder mais segundos calculando a velocidade. O painel triplo — com velocímetro, conta-giros e medidor de combustível integrados — é montado no guidão de formato angular e com iluminação de LED. Bem, eu também gostaria de um computador de bordo e um prático indicador de marchas no painel, mas é uma Harley.



O painel triplo da V-Rod Muscle é analógico e segue a linha da marca






Sobrevivi ao teste de arrancada e logo entrei na Rodovia dos Bandeirantes. Eu e moto suspiramos aliviados, pois o caos do trânsito urbano não é para nós. Adoramos a liberdade da estrada. Não é preciso dizer que com um motor de 1.250 cilindradas basta puxar o acelerador e a velocidade parece não ter fim. O asfalto vai sendo engolido enquanto o velocímetro dispara. O motor é manso até 4.500 rpm, depois disso ele solta toda cavalaria pesada. É um soco de potência, como diz o slogan da própria Harley-Davidson.
Sai da frente porque a Muscle pede passagem. Aí entra todo o desempenho do arrojado projeto ciclístico da Harley. Ela é completamente estável, mas exige cuidado nas curvas, pois abre muito a dianteira e raspar a pedaleira é fácil. Outra característica deste motor, desenvolvido em parceria com a alemã Porsche, é a elasticidade, que evita ficar trocando de marcha todo o tempo.
Viagem
É uma moto para encarar uma boa viagem, no entanto, sua autonomia não é lá muito grande. O tanque comporta generosos 18 litros de gasolina, e, a uma média de 15km/l, vai ter que parar a cada 250km para abastecer. Detalhe: o tanque fica sob o banco do piloto, o que torna o centro de gravidade mais próximo do chão, aumentando a estabilidade.
A Harley-Davidson V-Rod Muscle é uma moto que impõe respeito tanto na estrada como na cidade. Ela chama a atenção por onde passa. São elogios pela beleza e design. Com seu largo pneu traseiro, perfil baixo, agressivo e guidão inspirado em dragstrip, ela é bonita e poderosa.

A lanterna traseira em LED da V-Rod Muscle "abraça" o para-lama e acentua o enorme pneu de 240 milímetros







As diferenças estão nos detalhes, como as luzes indicadoras de direção em LED, que estão integradas às hastes dos espelhos retrovisores. Os indicadores de direção ficam posicionados em cada lado do guidão e desligam automaticamente. Bem prático. Na traseira, as lanternas e luzes indicadoras, também em LED, abraçam o para-lama e acentuam o enorme pneu traseiro. O assento tem um design côncavo, baixo, o que reforça a sensação de segurança e de controle. Quanto a vibração e o calor emanado do potente motor, achei dentro da normalidade.
A Harley-Davidson também caprichou no sistema de exaustão, que é formado por dois escapamentos laterais, retos, com acabamento em cromo acetinado. Por fim, a V-Rod Muscle é uma máquina esportiva para um público jovem em busca do espírito de liberdade sobre duas rodas, marca da lendária Harley-Davidson.


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